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Juliano Moreira

Publicado: Quinta, 25 de Agosto de 2022, 00h00 | Última atualização em Segunda, 19 de Setembro de 2022, 19h30 | Acessos: 544

Nasceu em Salvador, na freguesia da Sé, província da Bahia, em 6 de janeiro de 1872. Era filho de Manuel do Carmo Moreira Júnior, português, inspetor de iluminação pública, e Galdina Joaquim do Amaral, doméstica, empregada na residência de seu padrinho, o barão de Itapuã Adriano Alves Lima Gordilho, médico e professor da Faculdade de Medicina da Bahia. Fez seus estudos iniciais em Salvador, no Colégio Pedro II e no Liceu Provincial. Em 1886, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, e foi interno da clínica dermatológica e sifilográfica, em 1890. Concluiu o curso em 1891, apresentando a tese intitulada Sífilis maligna precoce, citada em dois importantes periódicos internacionais, Journal des Maladies Cutanées et Syphilitiquese, pelo sifilógrafo Frédéric Buret, e Annales de Dermatologie et Syphiligraphie, pelo professor Raymond Jacques Adrien Sabouraud. Neste trabalho, afastou-se da teoria que correlacionava a doença à constituição racial, da qual era adepto o médico Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), seu professor, com quem polemizou acerca da miscigenação e da degenerescência da população brasileira. Foi alienista do asilo São João de Deus, vinculado à Santa Casa de Misericórdia, de 1893 a 1903. Em 1892, foi designado pela Inspetoria de Higiene para integrar a comissão médica que prestaria assistência aos indigentes acometidos de febres e disenteria na cidade do Bonfim e região, cuja experiência resultaria no relatório “Endemoepidemia da Jacobina”, publicado no ano seguinte na Gazeta Médica da Bahia. Em 1893, atuou como professor assistente da cadeira de clínica psiquiátrica e doenças nervosas, sem remuneração. Em 1894, fez concurso para a Faculdade de Medicina da Bahia, sendo nomeado preparador de anatomia médico-cirúrgica. Em seus estudos dermatológicos, publicou em 1895, na Gazeta Médica da Bahia, artigo em que identificou a existência no Brasil da doença botão endêmico dos países quentes (botão da Bahia, botão de Biskra ou leishmaniose tegumentar), descrevendo sua forma clínica. Ainda em 1895, foi o primeiro cientista a descrever a hydroa vacciniforme, trabalho que publicaria mais tarde no Britsh Journal of Dermatology, tendo realizado ainda o primeiro exame microscópico no Brasil dos casos de micetoma, de goundum e ainhum (dactylolysis spontanea), em 1902. Em suas pesquisas, foi pioneiro na Bahia na realização de punção lombar para estudo do líquido cefalorraquidiano dos doentes de sífilis e lepra. Entre 1895 e 1902, visitou clínicas e serviços de neuropsiquiatria em diversos países europeus, como Alemanha, França, Inglaterra, Escócia, Bélgica, Holanda, Itália e Suíça. Nesse mesmo período, participou ainda de cursos com nomes expressivos da área de neurologia e psiquiatria, como Emil Kraepelin, Valentim Mangnan, Richard von Krafft-Ebing e Paul Emil Flechsig, entre outros; bem como da clínica médica, além de inúmeros congressos internacionais, que complementaram sua formação médica. Em 1896, fez concurso de lente substituto para a cadeira de moléstias nervosas e mentais, sendo aprovado em primeiro lugar, com a apresentação de tese oral Disquinesias arsenicais e do trabalho Miopatias progressivas. Em novembro 1902, viaja ao Rio de Janeiro, para acompanhar o embalsamento do médico baiano e vice-presidente da República Manuel Vitorino (1894-1898), de quem era amigo e discípulo. Em 1903, foi nomeado diretor do Hospital Nacional de Alienados, criado na capital federal como Hospício de Pedro II, em 1841, onde empreenderia grandes reformas. Na direção, reestruturou os métodos no tratamento e na assistência aos doentes mentais, até então baseados na psiquiatria francesa, orientado pelas ideias do psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1855-1926), considerado o fundador da psiquiatria moderna, com quem havia estudado. Aboliu o uso de coletes e camisas de força; introduziu novas terapias, como a clinoterapia e a balneoterapia; reestruturou as instalações físicas do hospital, derrubou as grades das celas dos internos, criou o primeiro pavilhão-escola, destinado às crianças, além de enfermarias, oficinas, laboratórios para realização de diagnóstico e uma biblioteca especializada; organizou o quadro técnico, treinando seus profissionais no que de mais moderno havia na área. Durante sua gestão, médicos como Afrânio Peixoto, Miguel Pereira, Antônio Austregésilo, Gustavo Leitão da Cunha, Álvaro Ramos, Gustavo Riedel, Sampaio Correia e Heitor Carrilho passaram pelo hospital, que se constituiu como um importante centro de referência da psiquiatria brasileira e da assistência aos doentes mentais. Apoiou o projeto do médico, deputado federal e ex-diretor do Hospício de Pedro II João Carlos Teixeira Brandão, que reformava a assistência aos alienados, aprovada pelo decreto n. 1.132, de 22 de dezembro de 1903. Foi nomeado, em 1911, diretor da Assistência Médico-Legal de Alienados, criada em 1890, que subordinava o Hospício Nacional de Alienados e as duas colônias de alienados para homens indigentes, de São Bento e Conde de Mesquita, situadas na Ilha do Governador. Também em 1890, foi criada a Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro, para abrigar o excedente de mulheres do Hospício Nacional de Alienados, e em 1919, a colônia para homens, em Jacarepaguá, que após sua morte recebeu o nome de Colônia Juliano Moreira. Em sua gestão foi estabelecido, em 1921, o Manicômio Judiciário, pelo decreto n. 14.831, de 25 de maio, a primeira instituição do gênero no país, destinada a receber os pacientes ‘criminosos’, encaminhados pela Justiça do Distrito Federal. Em 1928, viajou para o Japão, a convite do governo japonês, onde visitou uma série de universidades e instituições médicas, sendo condecorado pelo imperador daquele país com a Ordem do Tesouro Sagrado. Foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina e Cirurgia (1894), da Sociedade de Medicina Legal da Bahia (1895), da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal (1907) e da Sociedade Brasileira de Ciências, da qual foi presidente (1926-1929), além de ter sido membro de inúmeras outras associações científicas nacionais e internacionais, tais como a Academia Nacional de Medicina, a Ligue Française de Prophylaxie et d´Hygiène Mentale, o Royal Medico-Psychological Association, a Sociedade de Neurologia de Buenos Aires, a Antropologische Gesellschaft de Munich, a American Academic of Political and Social Science, a Liga Brasileira de Higiene Mental, a Sociedade Brasileira de Psicanálise, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto Brasileiro de Ciências e a Liga de Defesa Nacional. Participou de inúmeros congressos nacionais e internacionais, destacando-se a o IV Congresso Internacional de Assistência a Alienados (1900), em Berlim, em que foi presidente honorário; o V Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia (1903), em que presidiu a seção de Sifilografia e Dermatologia; o Congresso de Assistência a Alienados (1907), em Milão, onde foi indicado orador da sessão de encerramento pelos congressistas; a II Conferência Internacional da Lepra (1909), em Bergen; e os congressos brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, de 1906 e 1922. Foi um dos fundadores dos periódicos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins (1905), pioneiro na área da psiquiatria; Arquivos Brasileiros de Medicina, com os médicos Gustavo Riedel, Antônio Austregésilo, Mário Pinheiro e Ernani Lopes (1911); e Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1930), ao lado de Heitor Carrilho (1930). Colaborou com inúmeros outros, como a Revista dos Internos, da Faculdade de Medicina da Bahia, a Revista Médico-Legal, o Brasil Médico, a Revista Médico-Cirúrgica do Brasil, e o Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia, que dirigiu. Foi autor de inúmeros trabalhos no campo da dermatologia e da psiquiatria, destacando-se O serviço médico judiciário no estado da Bahia (1896), A sífilis como fator de degeneração (1899), Notícia sobre a evolução da assistência a alienados no Brasil, (1905), Assistência aos alienados no Brasil (1906), Les maladies mentales au Brésil (1907) e A evolução da medicina brasileira (1908). Fundou, em colaboração com outros médicos, os periódicos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1905), Arquivos Brasileiros de Medicina (1911) e Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1930), tendo colaborado nos periódicos Brasil Médico e Revista Médico-Cirúrgica do Brasil. Foi afastado de suas atividades com a chamada Revolução de 1930, a qual depôs o presidente em exercício, Washington Luís (1926-1930) e impediu a posse da chapa vencedora das eleições, composta por Júlio Prestes de Albuquerque e Vital Soares, dando início ao governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1934). Morreu na cidade de Correias, no Rio de Janeiro, no dia 2 de maio de 1933.

Dilma Cabral
Mar. 2022

 

 

Bibliografia

DUNNINGHAM, William Azevedo. Juliano Moreira: notas sobre sua vida e sua obra. Gazeta Médica da Bahia, v. 78, n. 1, p. 72-75, jan./jun. 2008. Disponível em: https://bit.ly/3u6oDPs. Acesso em: 16 mar. 2022.

FACCHINETTI, Cristiana et al. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins: uma fonte com muita história. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 17, supl. 2, dez. 2010. Disponível em: https://bit.ly/3qmfl0Y. Acesso em: 21 mar. 2022.

JACOBINA, Ronaldo Ribeiro; GELMAN, Ester Aida. Juliano Moreira e a Gazeta Médica da Bahia. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, p. 1.077-1.097, out./dez. 2008. Disponível em: https://bit.ly/36nRB5c. Acesso em: 16 mar. 2022.

MEMORIAL Professor Juliano Moreira. Juliano Moreira: o mestre/a instituição. Salvador: Empresa Gráfica do Estado da Bahia; Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, 2007. Disponível em: https://bit.ly/3wtlImS. Acesso em: 15 mar. 2022.

SANTOS, Ynaê Lopes dos. Juliano Moreira: o médico negro na fundação da psiquiatria brasileira [livro eletrônico]. Niterói: Eduff, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3L0CKg9. Acesso em: 16 mar. 2022.

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